ONU defende IA inclusiva para países em desenvolvimento
A inteligência artificial já influencia produtividade, educação, saúde, indústria e serviços em escala global. Mas uma pergunta estratégica ganhou força nos fóruns internacionais: quem realmente vai se beneficiar dessa transformação? Um novo relatório da United Nations Conference on Trade and Development reforça que, sem coordenação pública e cooperação internacional, a IA pode ampliar desigualdades existentes em vez de reduzi-las.
O alerta é direto. Países com maior capacidade computacional, acesso a capital, infraestrutura digital robusta e ecossistemas de pesquisa consolidados tendem a capturar a maior parte do valor econômico gerado pela nova tecnologia. Enquanto isso, economias emergentes correm o risco de se tornarem apenas consumidoras de sistemas desenvolvidos no exterior.
O risco de uma nova divisão tecnológica
Em revoluções anteriores, a distância entre nações inovadoras e nações dependentes gerou impactos duradouros sobre renda, competitividade e soberania econômica. A IA pode repetir esse padrão em velocidade ainda maior.
Modelos avançados exigem dados de qualidade, energia confiável, conectividade, profissionais qualificados e ambientes regulatórios claros. Sem esses elementos, muitos países enfrentam barreiras para desenvolver soluções locais adaptadas à sua realidade.
Isso significa depender de ferramentas externas nem sempre treinadas para seus idiomas, contextos culturais ou necessidades produtivas.
O que o relatório recomenda
Para evitar esse cenário, o documento defende uma agenda ampla de inclusão tecnológica. Entre os principais pontos estão:
- investimento público em educação digital e formação técnica
- expansão de infraestrutura de conectividade e computação
- incentivo à pesquisa científica local
- compartilhamento internacional de conhecimento
- estímulo à ciência aberta e modelos colaborativos
- marcos regulatórios que favoreçam inovação responsável
A lógica é simples: não basta importar tecnologia. É preciso construir capacidade interna.
IA adaptada a realidades locais
Um dos maiores potenciais da inteligência artificial está em resolver problemas específicos de cada país. Na agricultura, pode otimizar safras conforme clima regional. Na saúde, ampliar triagem e diagnóstico em áreas carentes. Na educação, personalizar ensino em diferentes idiomas e níveis de acesso.
Sem participação ativa de países em desenvolvimento, essas aplicações podem surgir tarde demais, de forma cara ou desconectada das necessidades locais.
Por isso, a discussão sobre inclusão não é apenas ética. É econômica e estratégica.
Cooperação como fator decisivo
Nenhum país precisa percorrer esse caminho isoladamente. Parcerias entre universidades, centros de pesquisa, organismos multilaterais e setor privado podem acelerar transferência de conhecimento e reduzir custos de entrada.
A cooperação também ajuda a definir padrões internacionais mais equilibrados, evitando que poucas economias determinem sozinhas as regras da próxima era digital.
O desafio da próxima década
A corrida global da IA costuma ser retratada como disputa entre grandes potências. Mas o verdadeiro teste será outro: transformar uma tecnologia concentradora em ferramenta de desenvolvimento mais amplo.
Se bem conduzida, a inteligência artificial pode ampliar oportunidades para milhões de pessoas em mercados emergentes. Se negligenciada, pode consolidar uma nova fronteira de dependência tecnológica.


